A violência vai ao jardim de infância. Entra como
velha conhecida "sem saber que é a mais nova namorada". A violência
não toma parte disso tudo, desse denuncismo barato, não quer
pôr-a-boca-no-trombone, sair de alma lavada. Não é de seu feitio
mexericos, muito menos revoltar, provocar discórdia. A violência,
essa pobre garota ingênua, ainda tão boba, não sabe enganar. Não
veio ao mundo para violentar. É de uma originalidade comovente. O
melhor de violência é sua inocência. Inocente e engraçadinha.
Estética quase-limpa, mas anti-esterelizada, sempre disposta a uma
contaminaçãozinha. Que lindas as fotografias de Cristiano Prim e
Fernando Rosa, de uma beleza macabra, esquartejam e deformam com
mágico bisturi; fragmentam, desfiguram. Um zoom que grita os
detalhes que o olho, sujo da cinza dos dias, deixa de ver. Não à
violência convencional, a violência comezinha, comedida, com
relógio-ponto e protocolo, que se encontra por aí, zipando a vida
confortavelmente instalado na poltrona. Nada desta violência cult,
querendo disfarçar-se de estranha, fartamente abastecida na butique
Cronnenberg. Basta desta violência sórdida, que sai pela tarde de
terno branco, engomado, com um rinoceronte na lapela. A violência
não passa de brincadeira de roda, ciranda-cirandinha vamos todos
violentar. Nos passos de Alejandro Ahmed, a violência, como primeira
natureza, resulta de incrustações endógenas, crescendo numa lógica
mineral, na grande jornada da metástese. A violência não é bonita,
nem divertida, nem engraçada. Talvez o exotismo lhe caia bem, com
aquelas roupas e seu jeito de quebrar os próprios ossos, ninando com
voz doce de sereia. Uma criança, a violência; essa menina, cheia
de traquinagem tão bem personificada pela Letícia Lamela. Claro, é
preciso ralhar, senão ela toma conta! No entanto, vemos com certo ar
de orgulho, de surda admiração e abnegada cumplicidade enquanto
apronta das suas, o peralta do Neco. A violência tem esta
inexcedível capacidade de nos fazer parecer que todos os dias são o
Dia das Bruxas. Tem esta cara de malvada, a danadinha, mas é só para
fazer graça. Fazer troça. Por trás das máscaras há um
rosto saudável e feliz, querendo ganhar uns docinhos. Não é
nada, é apenas a inocência cruel das criancinhas: vazam os olhos,
quebram a clavícula, cortam os pulsos, arrancam os dentes e dizem as
piores verdades, estes Querubins. Vê como voam, saltam, jogam-se,
andam de patins, sobem em pernas de pau, só para assustar. Depois,
ficam socando o próprio estômago, furando o rosto, o corpo inteiro,
para pendurar aqueles instrumentos metálicos de tortura. No fundo,
somos todos crianças, querendo dormir com a fantasia, nem que seja
uma boneca de vodu ao som de Bee Gees. Bobagem, pura bobagem:
violenta é a cadeira voando no palco, é aquele acrílico a delimitar
nosso horizonte, é esta necessidade de carinho e compreensão, esta
solidão que não se mitiga; o resto é uma sintaxe de exceção que faz
o sujeito satisfeito de si "dar o desespero".
Joel Gehlen é jornalista.
Cena 11 atinge sistema nervoso do
espectador
Joinville - Atingir o sistema nervoso do espectador.
O objetivo do coreógrafo e bailarino do Grupo Cena 11 Cia. de Dança,
Alejandro Ahmed, parece ter se concretizado na apresentação de
terça-feira à noite no ginásio do Serviço Social do Comércio (Sesc),
em Joinville. Calado, o público assistiu à performance e saiu com
impressões diversas sobre o espetáculo, que choca e ao mesmo tempo
remete a uma reflexão sobre o cotidiano e o modo de ser de cada um.
O espetáculo "Violência" encerra turnê nos próximos dias 23 e 24, em
Florianópolis.
Cresce sofisticação
nos micros portáteis Equipamentos que fazem identificação através de
impressão digital são uma das novidades. AN_Informática
Antes
de subir ao palco, a companhia suou a camisa em dois dias de ensaios
em Joinville. "Temos quatro toneladas de cenário, fora equipamentos
de som e de luz. Tudo tem de estar perfeito. Embora não pareça,
precisamos de muita sintonia para que tudo dê certo", justificou o
bailarino Alejandro Ahmed ao visitar, com os colegas, as instalações
da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. "A troca de informações
entre o clássico e o contemporâneo é muito boa. É interessante para
as crianças saberem que também fazemos aula de balé clássico, só que
com outra finalidade", explicou. Para Alejandro, que começou a fazer
aulas de jazz, seguindo para o break e o clássico, aos 11 anos, a
oportunidade que as crianças joinvilenses estão tendo é
extraordinária. "Se eu fosse menino teria adorado esta chance",
fala. A companhia busca obter recursos para apresentações em
outros Estados. "Convites nós temos, inclusive para o exterior",
completa. Para o bailarino, a lei estadual de incentivo à cultura é
essencial para o desenvolvimento de projetos como o "Violência" e
como o Bolshoi. "Quando estávamos em Portugal, era o nome de Santa
Catarina que estava lá. O mesmo vai acontecer com o Bolshoi quando
iniciarem as apresentações", registra.