Joinville         -          Quinta-feira, 22 de Março de 2001         -          Santa Catarina - Brasil
 
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Violência no jardim de infância

Joel Gehlen
Especial para o Anexo

A violência vai ao jardim de infância. Entra como velha conhecida "sem saber que é a mais nova namorada". A violência não toma parte disso tudo, desse denuncismo barato, não quer pôr-a-boca-no-trombone, sair de alma lavada. Não é de seu feitio mexericos, muito menos revoltar, provocar discórdia. A violência, essa pobre garota ingênua, ainda tão boba, não sabe enganar. Não veio ao mundo para violentar. É de uma originalidade comovente.
O melhor de violência é sua inocência. Inocente e engraçadinha. Estética quase-limpa, mas anti-esterelizada, sempre disposta a uma contaminaçãozinha. Que lindas as fotografias de Cristiano Prim e Fernando Rosa, de uma beleza macabra, esquartejam e deformam com mágico bisturi;
fragmentam, desfiguram. Um zoom que grita os detalhes que o olho, sujo da cinza dos dias, deixa de ver.
Não à violência convencional, a violência comezinha, comedida, com relógio-ponto e protocolo, que se encontra por aí, zipando a vida confortavelmente instalado na poltrona. Nada desta violência cult, querendo disfarçar-se de estranha, fartamente abastecida na butique Cronnenberg. Basta desta violência sórdida, que sai pela tarde de terno branco, engomado, com um rinoceronte na lapela.
A violência não passa de brincadeira de roda, ciranda-cirandinha vamos todos violentar. Nos passos de Alejandro Ahmed, a violência, como primeira natureza, resulta de incrustações endógenas, crescendo numa lógica mineral, na grande jornada da metástese. A violência não é bonita, nem divertida, nem engraçada. Talvez o exotismo lhe caia bem, com aquelas roupas e seu jeito de quebrar os próprios ossos, ninando com voz doce de sereia.
Uma criança, a violência; essa menina, cheia de traquinagem tão bem personificada pela Letícia Lamela. Claro, é preciso ralhar, senão ela toma conta! No entanto, vemos com certo ar de orgulho, de surda admiração
e abnegada cumplicidade enquanto apronta das suas, o peralta do Neco. A violência tem esta inexcedível capacidade de nos fazer parecer que todos os dias são o Dia das Bruxas. Tem esta cara de malvada, a danadinha, mas é só para fazer graça. Fazer troça. Por trás das máscaras há um rosto
saudável e feliz, querendo ganhar uns docinhos.
Não é nada, é apenas a inocência cruel das criancinhas: vazam os olhos, quebram a clavícula, cortam os pulsos, arrancam os dentes e dizem as piores verdades, estes Querubins. Vê como voam, saltam, jogam-se, andam de patins, sobem em pernas de pau, só para assustar. Depois, ficam socando o próprio estômago, furando o rosto, o corpo inteiro, para pendurar aqueles instrumentos metálicos de tortura. No fundo, somos todos crianças, querendo dormir com a fantasia, nem que seja uma boneca de vodu ao som de Bee Gees.
Bobagem, pura bobagem: violenta é a cadeira voando no palco, é aquele acrílico a delimitar nosso horizonte, é esta necessidade de carinho e compreensão, esta solidão que não se mitiga; o resto é uma sintaxe de exceção que faz o sujeito satisfeito de si "dar o desespero".

  • Joel Gehlen é jornalista.


Cena 11 atinge sistema
nervoso do espectador

Joinville - Atingir o sistema nervoso do espectador. O objetivo do coreógrafo e bailarino do Grupo Cena 11 Cia. de Dança, Alejandro Ahmed, parece ter se concretizado na apresentação de terça-feira à noite no ginásio do Serviço Social do Comércio (Sesc), em Joinville. Calado, o público assistiu à performance e saiu com impressões diversas sobre o espetáculo, que choca e ao mesmo tempo remete a uma reflexão sobre o cotidiano e o modo de ser de cada um. O espetáculo "Violência" encerra turnê nos próximos dias 23 e 24, em Florianópolis.
Cresce sofisticação nos micros portáteis
Equipamentos que fazem identificação através de impressão digital são uma das novidades.  AN_Informática 
Antes de subir ao palco, a companhia suou a camisa em dois dias de ensaios em Joinville. "Temos quatro toneladas de cenário, fora equipamentos de som e de luz. Tudo tem de estar perfeito. Embora não pareça, precisamos de muita sintonia para que tudo dê certo", justificou o bailarino Alejandro Ahmed ao visitar, com os colegas, as instalações da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil.
"A troca de informações entre o clássico e o contemporâneo é muito boa. É interessante para as crianças saberem que também fazemos aula de balé clássico, só que com outra finalidade", explicou. Para Alejandro, que começou a fazer aulas de jazz, seguindo para o break e o clássico, aos 11 anos, a oportunidade que as crianças joinvilenses estão tendo é extraordinária. "Se eu fosse menino teria adorado esta chance", fala.
A companhia busca obter recursos para apresentações em outros Estados. "Convites nós temos, inclusive para o exterior", completa. Para o bailarino, a lei estadual de incentivo à cultura é essencial para o desenvolvimento de projetos como o "Violência" e como o Bolshoi. "Quando estávamos em Portugal, era o nome de Santa Catarina que estava lá. O mesmo vai acontecer com o Bolshoi quando iniciarem as apresentações", registra.

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