Carta de amor ao inimigo

2012

Sobre Carta de Amor ao Inimigo

Se "ter fé é dançar na beira do abismo"*, o Cena 11 dança na beira do abismo ao crer que outra dança é possível. Uma dança capaz de ser descoberta no devir das coisas, na interdependência dos opostos, no reconhecimento dos outros como espelho de si mesmo. A disponibilidade é a arma de uma guerra travada pela vontade de descobrimento, pela necessidade de reconhecimento daquilo que está em nós e só vemos possível ao deixar um outro invadir, e ao ser cúmplice dele. Disponibilidade como poder, disponibilidade como modo de encontrar plenitude em meio à tempestade.

O Cena 11 olha para o abismo com a convicção de suas fraquezas e falibilidade, convicção de que está sujeito ao colapso e de que este emerge ao se doar ao outro na luta por um espaço que depende de muitos. É preciso um outro:

 

O que é estar junto?

 

Carta de Amor ao Inimigo

 

Mobilidade, vetores, interdependência generativa, disponibilidade, oposição, incompletude, movimento como revelador de identidades e devires, a beleza como resultado transitório da adaptabilidade, vestígio, resistência, natureza e ameaça, entropia e impossibilidade, colapso, certeza no mistério.

 

O Grupo Cena 11 tem clareza de que Carta de amor ao inimigo é um território de ação e não uma tentativa de figuração desse nome. Assim, todas as informações que dão origem e delineiam esse território são tanto causa quanto consequência dele mesmo.

O mover, suas revelações e potências são o curso labiríntico de Carta de Amor ao Inimigo.

 

 

Na trajetória reveladora e de desvendamento do movimento, o Grupo Cena 11 tece o corpo de seu novo espetáculo instaurando o encontro de opostos para entender unidade. Oposição como devir e condição de disponibilidade na qual o colapso é uma evidência dos limites de negociação dos corpos, não um objetivo.

 

O movimento aqui proposto é aquele engendrado nas condições coletivas (entre os bailarinos, entre os dispositivos coreográficos, entre os vetores músculo/emocionais que movem o corpo, entre o chão e a luz, entre o agir dança e o ver dança, entre o som e o ambiente) que permitem, sugerem, e são cúmplices de sua existência.

 

O ser dois para ser outro, ser muitos para escapar no afastamento que, como um vestígio, desvenda novos encontros e aceita falências.

 

Movemo-nos para reconhecer um labirinto que sugere caminhos músculo/emocionais, nos quais a relação entre a forma e o objetivo de nomear cada corpo é um ato de Grupo.

 

Os detalhes dados pelas ações em cada corpo funcionam com uma contaminação via empatia vetorial, uma maneira de correlacionar ações, que envolve a disponibilidade de somar familiaridades e diferenças encontrando viabilidades, inevitabilidades e ineficiências. Adaptar-se é nossa potência de beleza, uma deliberação remota do nosso crédito ao inesperado.

 

 

Quatro anos após a pesquisa para a criação do Sim > ações integradas de consentimento para ocupação e resistência o Grupo Cena 11 finaliza a concepção de Carta de Amor ao Inimigo às vésperas de completar 20 anos de Cia. Esta trajetória sublinha, com este novo trabalho, a construção de um método de criar que formulou estratégias pedagógico/compositivas situando o Cena 11 como um núcleo de formação à dança que abraça muitos saberes.

 

 

A criação do Sim > ações integradas de consentimento para ocupação e resistência inaugurou um Projeto de pesquisa no Grupo que mudou o rumo da dança a ser criada pela Cia.. Este novo trabalho colhe estas mudanças e dá voz a esta nova fase: O que buscamos agora não é mais uma coreografia, é uma situação coreográfica**.

 

 

Construída em estabilidades transitórias estabelecidas pelo conhecimento gerado em cada um dos seus dez trabalhos anteriores, a definição de corpo proposta pela Cia., amplia a variável de acesso e compartilhamento das pesquisas realizadas, tornando possível a construção de uma rede cada vez maior de troca de informação e dissipação de saberes engessados.

 

Com Carta de Amor ao Inimigo o Cena 11 crê que a autonomia só é possível com a disponível cumplicidade de um outro.

 

 

Texto:

 

Alejandro Ahmed, Mariana Romagnani.

 

 

 

*Friedrich Nietzsche

 

 

** citação: "situação coreográfica" de Fabiana Dultra Britto