Carta de amor ao inimigo

Love Letter To The Enemy

2012

Artistic direction and choreography: Alejandro Ahmed

If "having faith is dancing even near abysses"*, CENA 11 dances near the abyss in believing that another dance is possible. A dance capable of being discovered as things are becoming, discovered in the interdependence of opposites, in recognizing others as a mirror of oneself. Availability as a weapon in a war fought for the will to discover, and for the need to recognize something inside of us that is made visible as one lets the other inside, and so one becomes accomplice to the other. 

Availability as power, availability as means of finding fullness in the midst of a storm. 

CENA 11 looks at the abyss with conviction of its own weaknesses and fallibilities, conviction that is subject to collapse which emerges when giving themselves to one another, while fighting for a space which depends on many people. 

 

Another being together is needed. 


 

*Friedrich Nietzsche

Direção e coreografia: Alejandro Ahmed

Sobre Carta de Amor ao Inimigo

Se "ter fé é dançar na beira do abismo"*, o Cena 11 dança na beira do abismo ao crer que outra dança é possível. Uma dança capaz de ser descoberta no devir das coisas, na interdependência dos opostos, no reconhecimento dos outros como espelho de si mesmo. A disponibilidade é a arma de uma guerra travada pela vontade de descobrimento, pela necessidade de reconhecimento daquilo que está em nós e só vemos possível ao deixar um outro invadir, e ao ser cúmplice dele. Disponibilidade como poder, disponibilidade como modo de encontrar plenitude em meio à tempestade.

O Cena 11 olha para o abismo com a convicção de suas fraquezas e falibilidade, convicção de que está sujeito ao colapso e de que este emerge ao se doar ao outro na luta por um espaço que depende de muitos. É preciso um outro:

 

O que é estar junto?

 

Carta de Amor ao Inimigo

 

Mobilidade, vetores, interdependência generativa, disponibilidade, oposição, incompletude, movimento como revelador de identidades e devires, a beleza como resultado transitório da adaptabilidade, vestígio, resistência, natureza e ameaça, entropia e impossibilidade, colapso, certeza no mistério.

 

O Grupo Cena 11 tem clareza de que Carta de amor ao inimigo é um território de ação e não uma tentativa de figuração desse nome. Assim, todas as informações que dão origem e delineiam esse território são tanto causa quanto consequência dele mesmo.

O mover, suas revelações e potências são o curso labiríntico de Carta de Amor ao Inimigo.

 

 

Na trajetória reveladora e de desvendamento do movimento, o Grupo Cena 11 tece o corpo de seu novo espetáculo instaurando o encontro de opostos para entender unidade. Oposição como devir e condição de disponibilidade na qual o colapso é uma evidência dos limites de negociação dos corpos, não um objetivo.

 

O movimento aqui proposto é aquele engendrado nas condições coletivas (entre os bailarinos, entre os dispositivos coreográficos, entre os vetores músculo/emocionais que movem o corpo, entre o chão e a luz, entre o agir dança e o ver dança, entre o som e o ambiente) que permitem, sugerem, e são cúmplices de sua existência.

 

O ser dois para ser outro, ser muitos para escapar no afastamento que, como um vestígio, desvenda novos encontros e aceita falências.

 

Movemo-nos para reconhecer um labirinto que sugere caminhos músculo/emocionais, nos quais a relação entre a forma e o objetivo de nomear cada corpo é um ato de Grupo.

 

Os detalhes dados pelas ações em cada corpo funcionam com uma contaminação via empatia vetorial, uma maneira de correlacionar ações, que envolve a disponibilidade de somar familiaridades e diferenças encontrando viabilidades, inevitabilidades e ineficiências. Adaptar-se é nossa potência de beleza, uma deliberação remota do nosso crédito ao inesperado.

 

 

Quatro anos após a pesquisa para a criação do Sim > ações integradas de consentimento para ocupação e resistência o Grupo Cena 11 finaliza a concepção de Carta de Amor ao Inimigo às vésperas de completar 20 anos de Cia. Esta trajetória sublinha, com este novo trabalho, a construção de um método de criar que formulou estratégias pedagógico/compositivas situando o Cena 11 como um núcleo de formação à dança que abraça muitos saberes.

 

 

A criação do Sim > ações integradas de consentimento para ocupação e resistência inaugurou um Projeto de pesquisa no Grupo que mudou o rumo da dança a ser criada pela Cia.. Este novo trabalho colhe estas mudanças e dá voz a esta nova fase: O que buscamos agora não é mais uma coreografia, é uma situação coreográfica**.

 

 

Construída em estabilidades transitórias estabelecidas pelo conhecimento gerado em cada um dos seus dez trabalhos anteriores, a definição de corpo proposta pela Cia., amplia a variável de acesso e compartilhamento das pesquisas realizadas, tornando possível a construção de uma rede cada vez maior de troca de informação e dissipação de saberes engessados.

 

Com Carta de Amor ao Inimigo o Cena 11 crê que a autonomia só é possível com a disponível cumplicidade de um outro.

 

 

Texto: Alejandro Ahmed e Mariana Romagnani.

 

*Friedrich Nietzsche

** citação: "situação coreográfica" de Fabiana Dultra Britto

 

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